segunda-feira, abril 23, 2007

As bikes brancas

As bicicletas brancas vêm em dois tamanhos: normal e pequeno. Pequeno é pra criança, normal é pra todo mundo com altura superior a 1 metro e meio. O fato de haver as bicicletas brancas não exclui a possibilidade de se chegar na própria bike e pedalar pelo parque numa bicicleta com marcha. Sim, porque as bicicletas brancas são simplonas: sem marcha e com freio contra-pedal. Olha o guidão, como é sem-nada... Bom, são típicias bicicletas holandesas, daquelas que têm proteção na corrente, pra barra da calça não se aventurar por entre os dentes da coroa. A posição do cilcista é a mais confortável possível: coluna reta, braços angulados e pernas esticadas. Eu usei 3 bikes brancas, e são todas iguais.

Hoge Veluwe

Arnhem, que é a cidade grande aqui do lado, a 20km de Nijmegen, dá entrada pro maior parque natural da Holanda. Além de uma vasta área muito verde, o parque abriga um museu com a maior coleção particular de Van Goghs, uma casa de caça e vários pontos de observação de animais de caça.
O parque é muito grande. As três entradas do parque (Otterlo, Arnhem e Hoenderloo) são perto de cidades diferentes. Não pense no Ibirapura. Pense numa área 20 vezes maior que o Ibirapura. Não dá pra uma família com criança pequena atravessar o parque de uma vez, num só dia - a pé. Por isso as bicicletas. São 1.700 bikes brancas no parque. Elas ficam em bicicletários e são gratuitas. Os bicicletários ficam nas 3 entradas e nos 3 pontos de concentração natural de turistas: o museu, o centro do parque com restaurantes e banheiros e a casa de caça. No meio do caminho, largadas, encontrei 2, durante todo o dia. Isso significa que o pessoal respeita e curte a idéia de ter as bikes brancas à disposição.
Kröller-Möller é o nome do museu particular que tem o maior número de obras de Van Gogh fora do Van Gogh Museum em Amsterdam. Claro que tinha mais baixinhos idosos de olhos puxados no museu do que quadros. Hm... nesse museu só tinha os quadros e a plaqueta indicando as referências de sempre: nome do artista, nome da obra, material, ano. Não havia nenhuma explicação sobre qualquer coisa, seja a obra, seja o artista, seja a época ou alguma estória relevante. Acho que foi a falta de texto que me decepcionou neste museu...
Logo atrás do museu tem um jardim de esculturas. Este jardim tem um horário de funcionamento limitado, é grande e curioso. Imagina quantos specs não foram usados pra montar essa barraca... Tá, acho que eu estou pensando na funcionalidade de uma obra de arte...
A casa de caça. St. Hubertus Jagdhuis. Tem visitas guiadas a cada meia hora, entre 11:00 e 13:00. Fora desses horários, a casa fica fechada. Logo abaixo há um lago com patinhos, muita gente deitada na grama e crianças fazendo cambalhotas.

quinta-feira, abril 19, 2007

Sem laptop

Óh, céus!
Meu laptop morreu. Assim, do nada. Não fui eu quem morreu ele. Ele se morreu-se a si mesmo, sozinho e por conta própria. Eu não tenho nada a ver com isso.

Terça de noite, voltando da escalada, quis ligar o computador, mas ele não quis fazer a sua parte. O botão POWER brilhava, mas a tela continuava preta. Fui dormir, achando que no dia seguinte ele ia mudar de idéia e funcionar direitinho.

Na manhã seguinte a história se repete. Aperto o botão e nada acontece.
Tá na garantia, achei o cupom fiscal, tem até o telefone da loja em que eu comprei o computador e ligo lá. A loja é em Syke, perto de Bremen, Alemanha. Traz aqui, que a gente vê o que faz. Moço, não é tão simples assim. Eu não estou na mesma cidade que você, nem mesmo no mesmo país. Eu teria que pegar alguns trens e viajar algumas horas e possivelmente você não vai consertar o meu computador num dia só.
Liguei pra minha mãe, avisando que era possível que eu aparecesse por lá em breve.
Fui pra universidade, trabalhar um pouco, ainda bem que tem computador na Uni, e que o que eu tinha que fazer era baseado num arquivo que o meu orientador mandou de volta, com comentários. Ainda bem que eu não preciso de nenhum dos dados que estão presos e inatingíveis, no meu laptop da tela preta. E no computador da universidade dava pra ver horários e preços de trem.
Voltei pra casa no começo da tarde, na verdade pra almoçar, mas acabei ligando na loja de computadores em Syke antes de pensar em comida. Um outro moço atendeu, e ele disse que nem poderia abrir o laptop, porque ele não pode violar o selo de garantia. O que ele pode fazer é mandar o computador pra Wortman AG, a empresa que faz os computadores da marca Terra. Grande coisa, e o que eu ganho com isso? Eu não precisaria me preocupar com os custos do envio, porque a loja assumiria isso por mim. Tá, mas eu ainda teria que pagar as passagens de trem de ida e volta, e possivelmente outra ida e volta, pra buscar o computador consertado ou novo. E os meu dados? As fotos, os arquivos de texto, a minha pesquisa, as minhas músicas... Se me derem um laptop novo, eu perco tudo o que eu coloquei no computador nesse meio ano? Eh, provavelmente vão consertar o teu computador.
Pedi um telefone da Wortman AG. O que eu precisava fazer era colocar o computador numa caixa, com a nota fiscal e a descrição do defeito, mais o meu endereço e telefone e mandar tudo pelo correio pra Alemanha. Eu pago o envio, eles assumem os custos do retorno. Mas moço, vai consertar ou me dar um novo? Os meus dados são muito importantes pra mim. Ah, a gente vai ver o que dá pra fazer, mas a gente sempre tenta consertar primeiro.
Fui no correio e postei o meu laptop. Mandei registrado, claro, mas putz... é o meu computador sendo transportado pelos Correios Holandeses. O pacote de Natal que eu mandei pra Oca não chegou nunca...
Às 4 da tarde eu lembrei de almoçar.

Conversando com as pessoas sobre a morte do meu computador, vieram algumas sugestões do que eu poderia fazer agora, sem ele:
  • viajar. Tira férias, boba!
  • ler. Hora de encarar uma biblioteca básica de manhã e de tarde.
  • cozinhar pros meninos lá de casa. Já que cê tá sem fazer nada, podia aproveitar...
Bom, comprei bastante histórias em quadrinhos e vou aceitar a sugestão de ler.
Hahaha!

segunda-feira, abril 16, 2007

Havaianas

Senhoras e senhores, tá fazendo calor aqui.
Fui de Havaianas pra universidade e reparei que não fui a única a me sentir na praia sem mar. As holandesas se empolgaram e mostraram muito mais pele branca do que a gente quer ver na luz do sol. O ar tem cheiro de flor, pétalas chovem em todo lugar, passarinhos estão em festa, os cafés estão lotados de gente sentada no sol, celebrando a vida. As árvores brilham com suas folhas novas, verde-clarinhas, ou suas frescas flores em cores vibrantes.

Lembrei da lezeira que dá no calor, lembrei do cheiro metálico que passa do corpo pra roupa, lembrei do som do chinelo sendo arrastado por kilômetros, lembrei do vento morno ao entardecer, lembrei até mesmo de voltar a ler o artigo que eu tava lendo sobre a plasticidade do cérebro.

domingo, abril 15, 2007

Criança em casa

Kaleem convidou uns amigos pra almoçar aqui. Ela usava muitos panos na cabeça, ele tinha as sobrancelhas fartas. Das crianças, o menino mais velho tinha dentes na boca, o menino mais novo ainda não tinha dentes, mas já andava.

Criança quer colo,
quer atenção,
quer mais atenção que o irmão.

Quando os dois meninos se entediaram da cozinha e do que havia em cima da mesa, foram explorar o corredor que termina na escada e passa por várias portas fechadas. Nada de muito extraordinário no corredor, mas havia lá uma mesinha com os entulhos da reforma. O menino menor não conseguia ver com os olhos o que havia em cima da mesa. Esticou o braço e viu, com as mãos, uma caixinha de plástico. A pequena mão agarrou a caixinha e a trouxe até os olhos. Tinha alguma coisa dentro da caixinha. Alguma coisa que faz barulho. O bracinho chacoalhou a caixinha no ar, a boca riu de felicidade, os ouvidos ouviram um som metálico contra o plástico e depois contra o chão. Todos os pregos que estavam na caixinha se espalharam no chão. O irmão mais velho já está do lado, observando. O menino menor se agacha, mas ainda não tem o treino suficiente para se equilibrar enquanto está de cócoras e ao mesmo tempo catar os pregos jogados no chão. O mais velho simplesmente senta no chão e junta pregos. Quem segura a caixinha de plástico é o menino menor. Mas ele está tão preocupado em se equilibrar na posição em que está, que gesticula com os braços, de modo que os últimos pregos que ainda estavam na caixinha caem no chão também. Os dois meninos juntam pregos, brincam com os pregos, mas só o menino maior lembra de colocar os pregos de volta na caixinha de plástico que ele tomou das mãos do irmão menor. Quando o irmão maior termina de coletar os pregos e fecha a caixinha, o outro já está longe, descobrindo outros objetos largados por aí. Ele deposita a caixinha sobre a mesinha no corredor e vai ver o que o irmãozinho está fazendo.
O pai, que terminou de almoçar, quer dividir a sobremesa com os meninos. Pega um copinho de iogurte e uma colher e vai até o corredor. Volta com dois seguidores ávidos por mais uma colher de iogurte. Alternadamente, eles recebem uma colher cheiona de iogurte. Pra indicar que estão satisfeitos, dão giros em volta de si mesmos, evitando assim a colher que continua vindo em suas direções. Todos riem e os dois meninos voltam para o corredor.
Vejo, antes de sair da cozinha, como uma mãozinha esticada procura por uma caixinha de plástico em cima da mesinha.

sábado, abril 14, 2007

27 graus

Vinte e sete graus celcius. Dizem que abril é mês com o tempo mais imprevisível. Num dia faz calor, no outro faz frio, no dia seguinte chove, aí você se distrai por um momento e já tá fazendo sol de novo.
Essas são imagens do jardim aqui de casa, que mudou completamente em uma semana. Essa árvore se chama Blutbuche em alemão. Blut é sangue, e Buche é o nome da família das árvores desse tipo. Eu não sabia que tem uma dessas aqui. No jardim de Nordwohlde, a Blutbuche é o meu ser preferido.
A cerejeira está em flor. Aliás, toda a rua está cheia de cerejeiras em flor. É como a florada de Ipês na rua que circunda a Unicamp, ou a festa dos Jacarandás na Avenida 1 em Barão Geraldo.
A Blutbuche com suas folhas vermelhas e os Ciprestes com suas novas folhas verdes.
Êh, maravilha! A vida nova vai tomando o lugar das folhas secas que secaram no outono, persistiram penduradas em seus galhos no inverno e teimaram contra a chuva e o vento por duas estações.
Vinte e sete graus e todo mundo na rua, pedalando de short, caminhando de regata, passeando de chinelo, dirigindo conversíveis abertos. Boti e eu pedalamos até a Alemanha, pra ele comprar os chocolates dele. Demoramos 3 horas pra fazer um percurso que eu faço em quase duas. A bicicleta dele é horrível e ele detesta pedalar...

quinta-feira, abril 12, 2007

Gostou? Fica pra você.

Kaleem foi no centro da cidade num sábado. Sábado é dia de fazer compras no centro de Nijmegen. Ele ia comprar, entre outras coisas, uma sacola de compras. Mas, por via das dúvidas, só pra garantir, saiu de casa com uma sacola preta de compras na mão. Uma sacola que tava aí, não se sabe de quem era. Essas coisas de república, que acabam sendo vistas como sendo da casa, não da propriedade de algum morador. Primeiro de tudo, foi numa loja que vende bolsas e sacolas de compras. Achou uma sacola que lhe agradou e foi pagar. A moça do caixa reparou na sacola preta na mão dele. Elogiou a sacola. Kaleem deu a bolsa pra ela. Agora ele tinha uma sacola melhor, não precisava mais da preta. Em retribuição, a moça convidou o Kaleem pra jantar. Kaleem conheceu o marido e os filhos da moça e agora tem mais amigos em Nijmegen que quando chegou.

***

Hayat tava na B.00.74, pensando em como chegaria na minha casa, praquela lendária feijoada. Pediu que eu anotasse o endereço num papel, e eu escrevi o nome da rua no papel que ela me deu. Isabelle lembrou que o ponto de ônibus em que ela precisava descer tem nome, e ofereceu de anotar também o nome do ponto. Hayat deu a lapiseira e o papel pra Isabelle. Quando pousou o grafite sobre o papel, Isabelle percebeu que era uma lapiseira e não uma caneta, e exclamou, surpresa e sempre sorridente, que aquilo era muito legal. Hayat deu a lapiseira pra Isabelle. Isabelle ficou sem graça, não, veja bem, eu só me surpreendi, eu não quero a lapiseira, mas não teve jeito. Hayat insistiu e Isabelle ficou com a lapiseira.

***

Kaleem foi a uma discoteca em Nijmegen. Não bebeu álcool, porque a religião dele não permite. Não ficou com nenhuma garota, porque a religião dele não permite. Mas ele se divertiu até não mais poder. Quando resolveu voltar pra casa, foi até a sua bicicleta e a destrancou. Uma guria bêbada veio até ele e comentou que não tinha luz na bicicleta dela. (Andar de bike sem luz dá multa aqui.) Kaleem não teve dúvidas: desencaixou a luz da bicicleta dele e a deu pra menina. A menina agradeceu e foi embora. Logo em seguida, ela voltou, com a luz na mão estendida. Não é certo, toma a tua luz de volta. Cê não precisa dela? Kaleem respondeu que sim, que precisava da luz, mas que ele compraria uma nova luz no dia seguinte e poderia muito bem pedalar até em casa sem luz. E se a polícia te pegar? É um risco que eu corro.

Paquistão e Irã são lugares que a gente não conhece, mas imagina que tenham tanta pobreza quanto no Brasil. Aí, essa generosidade dos dois parece ser a coisa mais natural do mundo: quem tem pouco, divide o pouco que tem e se alegra com o contentamento dos outros.

quarta-feira, abril 11, 2007

Música eletrônica

Antes de sair daqui, eu tava ouvindo Yes e Jethro Tull e Stanton Moore e essas coisas onde os instrumentos musicais são protagonistas.
Em Nordwohlde, caí num samba diluído de Maria Bethânia e Marisa Monte e dei uma matada de saudade da Mercedes Soza. Aí são as vozes que se destacam.
Desde que voltei, ando ouvindo o meu presente de aniversário do Philip: um CD com música eletrônica. Não sei bem se é essa, a categoria. Pode ser que seja lounge, pode ser que seja chillout, pode ser que seja música de rave. Não sei mais se ainda dá pra falar em compositor, instrumentista, esses termos clássicos. As vozes que eu ouço são sintetizadas. Sou incapaz de atribuir os sons que eu ouço a um instrumento, seja de corda, metal ou madeira. Suspeito que um sampler solta esses sons. As músicas seguem um padrão muito claro: começam como leve chuva de verão, se intensificam, se repetem, há momentos em que tons isolados se alongam, como se estivessem pendurados na beira de um abismo, por um fio invisível e depois outros ritmos se misturam, repetem e a faixa termina. Não há fechamento, acho que o DJ simplesmente abaixa o volume. As faixas são muito parecidas umas com as outras, mas ainda assim é possível perceber que uma música segue a outra. Bom, eu não percebi. (O meu tocador de CDs precisa se acostumar com os CDs que ele toca primeiro, e nessa fase de adaptação, ele faz os CDs novatos pularem. Pulam alguns segundos pra frente, um minuto pra trás, pra faixa seguinte, pra anterior, pro fim do CD. Uma maravilha. Os meus Cds de rock´n roll já não pulam mais. Passaram no teste e foram aceitos pela máquina, que foi vencida pelo cansaço.) Quando eu pus o CD do Bonobo, ele tocou por um bom tempo, até eu achar que pronto, né, deu! Essa música não vai pra lugar nenhum... e não ia mesmo, porque tava pulando sempre pro mesmo lugar, na primeira música. Passei pra faixa seguinte e não percebi que o mesmo aconteceu de novo. Devo ter gastado uma hora pra ouvir trechos das duas primeiras músicas repetidas vezes, e o pior: sem perceber, dada a natureza da música. Ó, chegou na faixa 12, mas eu não lembro de ter ouvido aquelas 9 no meio...

Acho engraçado como a convivência faz gostos convergirem. Philip e eu ouvíamos coisas parecidas. Não que eu não goste do que eu tô ouvindo agora, mas o meu gosto tomou outro rumo, e tenho cá pra mim que ele não curte muito o que eu ouço agora.
Acho engraçado como o Philip se posiciona frente à Música. Houve uma época em que ele tocava em 3 bandas e dava aula de bateria. Numa banda ele tocava baixo, na outra era violão, na outra ele cantava. Baterista de formação, ele não tocava o seu instrumento em nenhuma das bandas. Acho que só em uma banda ele fazia o tipo de música que ele gostava de ouvir. Ele dizia que nas outras duas bandas, ele fazia música que era divertido de fazer, não de ouvir.

Welcome back

Bah, que coisa boa ser bem-vinda!
Que coisa boa ver gente interrompendo o trabalho pra vir ouvir as tuas estórias e rir contigo.
Que coisa boa voltar a ter housedinner com os meus meninos e ouvir que sentiram a minha falta no churrasco de páscoa que fizeram no jardim. Eles também esconderam ovos de páscoa no jardim e depois se divertiram achando-os em lugares improváveis.

Por um lado, parece que a casa suspendeu a vida por uma semana: a cozinha tá do mesmo jeito que tava quando eu saí. A louça que eu lavei antes de partir ainda tava no escorredor. As plantas sobreviveram a minha ausência. A reforma continua perfumando a casa com cheiro de tinta, e obstruindo a passagem em lugares-chave, como por exemplo a porta de entrada; mas os homens mudaram. Agora não são mais os dois do sistema de encanamentos que tomavam café quando eu queria tomar café, consertavam o chuveiro quando eu queria tomar banho e liam revistas de automóveis possantes na mesa da cozinha quando eu queria almoçar. Agora Jan voltou. Jan é o homem que trabalha devagar, gosta de dispor todos os parafusos de forma ordenada, começa a trabalhar numa coisa diferente toda vez que vem e nunca termina nada e acha que dizer Holanda é melhor que Países Baixos.

Mas por outro lado, parece que a cada vez que eu volto, essa casa é mais a minha casa.

terça-feira, abril 10, 2007

Vaga lembrança

Tenho uma vaga lembrança dos dias de calor, da pele transpirando, dessa coisa chamada suor. Era salgado, se não me engano... Lembro que havia dias em que respirar era custoso, era preciso estar na horizontal para gastar menos energia, e assim produzir menos calor. Lembro que nesses dias um banho não era suficiente pra aplacar a queimação que emanava do corpo. Havia dias em que a cabeça fervia, porque o cabelo formava uma capa isolante sobre a moleira. O calor não se dissipava! Acho que foi num desses dias que eu cortei o meu cabelo curtinho.

Tenho uma vaga lembrança das tempestades. Da chuva despencando furiosamente, dos raios iluminando o mundo e dos trovões despertando o medo de que o mundo fosse mesmo acabar. Lembro dos baldes na sala, das goteiras na cozinha, das rachaduras no banheiro. Era uma correria danada que acabava por unificar as pessoas na tarefa de manter a casa seca. Lembro que às vezes acontecia das árvores deitarem na fiação elétrica, levando tudo abaixo, e deixando o povo sem luz. Lembro do vento e da luz das velas brancas em pires nunca usados.

Tenho uma vaga lembrança dos barulhos. A cachorrada latindo, as crianças chorando, o vizinho cantando no karaoquê, buzinas petulantes, rádios ligados o dia todo, a faxineira cantando pra distrair, alarmes de carros disparados, sirenes de ambulâncias em dias de chuva e muito trânsito parado, os sons digitais da TV, o vizinho lavando a garagem com a vassoura hidráulica, portas batendo.

Tenho uma vaga lembrança dos gestos das pessoas. Algumas pessoas são identificáveis pelos gestos que sempre repetem. Lembro que é possível transmitir idéias com as mãos. Lembro que eu sabia ler esses gestos que acompanhavam as palavras. Eles não significavam em si, apenas sustentavam o que era dito, reforçavam e dramatizavam a coisa toda. As pessoas gesticulavam. Não porque lhe faltassem palavras, mas porque as palavras não pareciam ser suficientes.

Um livro de 635 páginas

Terminei de ler um livro que me acompanhou por muito tempo. American Gods, do Neil Gaiman. Gaiman, que fez Sandman! Muitas páginas, muitas estórias que se entrelaçam, muitas fantasias, muitas memórias e idéias. Vou citar as passagens que mais brilharam no livro todo, e que me lembraram um mundo distante em mim mesma.

"There are stories that are true, in which each individual´s tale is unique and tragic, and the worst of the tragedy is that we have heard it before, and we cannot allow ourselves to feel it too deeply. We built a shell around it like an oyster dealing with a painful particle of grit, coating it with smooth pearl layers in order to cope. This is how we walk and talk and function, day in, day out, immune to others´ pain and loss. If it were to touch us it would cripple us or make saints of us; but, for the most part, it does not touch us. We cannot allow it to." (p. 345)

Isso se aplica a qualquer um que conhece a miséria dos outros. Eu ia escrever algo sobre Brasil, São Paulo, fome, frio, desespero, desamparo e descrença. Mas aqui também há pedintes, aqui também há aqueles que não se encaixam na sociedade, aqueles que sofrem, aqueles que não vêem beleza na vida faz muito tempo.
" 'Have you thought about what it means to be a god?'
(...) 'It means you give up your mortal existence to become a meme: something that lives forever in people's minds, like a nursery rhyme. It means that everyone gets to recreate you in their own minds. You barely have your own identity any more. Instead, you're a thousand aspects of what peolpe need you to be. (...)'
'Like I said. You have to be all things to all people. Pretty soon, you're spread so thin you're hardly there at all.'" (p. 504)

Essa parte me faz pensar no esforço das igrejas de unificar, afunilar as crenças dos crentes numa imagem de Deus. Não vale cada indivíduo criar o seu Deus à sua imagem e semelhança. Isso daria em dispersão, entropia, caos. Igreja é ser uma comunidade de pessoas que compartilham das mesmas crenças. Tudo bem, o tema anda povoando os meus pensamentos ultimamente...

"He sat down on a grassy bank and looked at the city that surrounded him, and thought, one day he would have to go home. And one day he would have to make a home to go back to. He wondered whether home was a thing that happened to a place after a while, or if it was something that you found in the end, if you simply walked and waited and willed it long enough." (p. 633)

Pois é. Eu estou convencida de que o Brasil é o meu país. Apesar das vezes que eu caminho pelas ruas de lá e penso que estou em outro país. Apesar da vontade de não estar lá sempre. Apesar de não saber a qual cidade eu pertenço. Mas é lá que me sinto à vontade em português, é lá que eu tenho amigos que me fazem rir, é lá que o sol brilha pra me acordar de manhã.

domingo, abril 08, 2007

Se no lavora, no manja

Acho que só vi a Julia com a cabeça descoberta uma vez na vida. Ela sempre tem algum pano na cabeça, nem que seja o capuz do moletom. Reparei que o Philip aderiu ao costume. Engraçado, como casais se assimilam... assemelham...

Moradias no Forellenweg 4

O endereço abriga duas moradias: uma na casa, outra no jardim.
Julia e Philip moram no trailer, pai e mãe na casa de tijolo.

Páscoa sem igreja

Que eu me lembre, esta é a primeira festividade cristã em que eu não vou à igreja.
Todo Natal eu sempre passei com a família, e quando a família vai à igreja, eu vou junto. Vou junto porque eu sou do tipo que acompanha, fica do lado. As Páscoas eu não passei todas com a família, mas eu ia na Olga, que ia na igreja.
Eu ia na igreja porque era costume, porque eu sou filha de pastor, porque depois tem festa, e na festa tem pessoas. Pra mim, igreja são as pessoas.

Em São Paulo, as pessoas da igreja são meio que parte da família. Passei muito tempo por lá... Aqui, as pessoas da igreja são parte da família para os meus pais, mas não pra mim. Entendo que pros meus pais seja difícil quando os dois filhos do pastor não aparecem nos cultos de Páscoa. Nem na Sexta-feira da Paixão, nem no Domingo de Páscoa. Mas pra Philip e pra mim a ida à igreja já não faz sentido. Não somos obrigados a ir, e Philip não vai porque se convenceu de que não acredita em Deus ou nos rituais que são feitos em seu nome. Eu não vou porque não me identifico com as pessoas dessa igreja, não quero acreditar em Deus e não preciso dos rituais.

Dessa vez o meu aniversário entrou no meio, dessa vez estávamos todos juntos de novo, dessa vez Philip e eu não nos sentimos compelidos a acompanhar os nossos pais, dessa vez marcamos nossas diferenças.

sábado, abril 07, 2007

Feliz Páscoa


A gente envelhece

e sente uma saudade danada da infância e quer voltar a fazer as coisas legais daquela época feliz. Eu pedi pra que, no meu aniversário, a gente pintasse ovos de páscoa. Eu tinha trazido 8 cascas de ovo de Nijmegen, que eu tinha soprado dias antes. No trem da vinda pra cá, por descuido, sentei em cima da caixa de ovos. Ai, ai, ai! Sentei em cima dos meus ovos e eles quebraram!!! exclamei em tom choroso, em alemão. Olhares intrigados pra cima de mim. Mas logo viram a caixa de ovos na minha mão e deram risada. Philip me buscou de carro na estação, depois buscamos a Julia, que sentou em cima da caixa de ovos, assim que entrou no carro. Sobraram dois.
Minha mãe não tinha soprado muitos ovos, mas ela tinha uma caixa com 10 ovos, que nós sopramos pra dentro de uma vasilha, pra depois comer omelete na janta.
Tudo bem. Soprar ovo. Que catzo é isso. Simples! Faz-se um furo na parte de baixo do ovo. O furo deve ser do tamanho do seu dedo mindinho. Faz-se um outro furo na parte de cima do ovo. Bem pequeno. Deve-se colar a boca nesse furinho e soprar, pra que a clara e a gema saiam pelo buraco maior. Pronto. Agora é só lavar o ovo, enfiar no mindinho e pintar o ovo. Depois de seco, ele é enchido de confetti ou MMs, ou qualquer outra coisa que o valha, e o buraco é tampado com papel de brigadeiro e cola.
Essa é a tradição de Páscoa da minha infância.

29

Minha vó telefonou e disse que ficou escandalizada, quando de repente se deu conta de que eu completava 29 anos de vida. Estamos envelhecendo... Oma disse que já tinha 3 filhos quando tinha 29. A minha mãe disse que já tinha 2 aos 29. Os únicos dois: Lou e Philip. Lou ainda está um pouco distante de ter filhos...

Novos moradores

Philip e Julia agora moram no jardim da casa dos meus pais. O trailer da Julia é a casa dos dois, e eles o estacionaram perto da porta da cozinha da casa pastoral. Junto com eles, vieram dois gatos. Ainda não aprendi os nomes deles, porque eu sempre chamo eles de gato. A gata está no cio, e ronrona feito um motorzinho pela casa, sobe em tudo, entra em tudo, acompanha todo mundo, caça ratos e brinca com eles, e quer muita atenção.
Já o gato é todo zen, mó na dele, não tá nem aí pra ela, já foi castrado e só pensa em contemplar a natureza, comer e dormir.

Lições de mecânica

Uma das palavras mais da hora em holandês é bromfiets. Fiets é bicicleta, e brom é bem onomatopéico: é uma bicicleta que faz brróm, brróm, brróm.
Philip comprou uma motoca baratinha, usada e judiada, pelo E-bay e teve que ir buscá-la do outro lado do país. Ele e Julia tiveram que aprender a conduzir o veículo e tomaram alguns tombos nesse processo.

Junto com os conhecimentos de direção da bromfiets, aprenderam um pouco sobre consertos de peças do veículo, já que sempre havia algo a ser consertado. Trocaram 4 pneus, um eixo, remendaram lanternas, e fizeram mais um monte de outros reparos. Dessa vez o Philip precisava trocar o pneu, mas pra isso era preciso tirar a roda. Essa era a parte penosa, porque ele tinha apertado tanto o parafuso do eixo, que trancou tudo. Eu girava a porca de um lado, ele segurava o parafuso do outro lado. O parafuso girava junto, e assim não dava pra desparafusar nada.
Com a Flex, ele cortou dois lados do parafuso, pra poder segurá-lo com o alicate de pressão, enquanto eu girava a porca. Maravilha! Tiramos o pneu da roda, localizamos o furo na câmara, não achamos nada pontiagudo no pneu e colocamos uma câmara nova no aro. Impossível botar o pneu de volta. Fomos no vizinho, que tinha um pé de cabra. O pé de cabra fez um belo rasgo na câmara nova. Philip buscou outra câmara, remendada. O pé de cabra teve a sua ponta arredondada e colocou o pneu por sobre o aro. Dessa o ventil foi esmagado e a câmara furou de novo.

Philip fez um balanço de quanto ele gastou na motoca e quanto ele gastou nos consertos e percebeu que, juntando tudo, dava quase uma nova. Sugerimos que ele fosse num mecânico, mas não, ele prefere não gastar dinheiro com mão-de-obra e consertar a bromfiets ele mesmo. Mesmo que ele force demais os parafusos e tenha dificulidades pra desmontar a roda, mesmo que ele passe óleo corrosivo no pneu, mesmo que os consertos sempre demandem outros consertos.

Mega Sena

Eu tava pesquisando manchetes de telejornais e topei com a seguinte ordenação dos fatos:
dia 9 de janeiro o Jornal Nacional, SBT Brasil e outros jornais anunciavam que a Mega Sena estava acumulada em mais de 50 milhões de reais. Os jornais transmitiam matérias sobre o que fazer com esse montante de dinheiro: o que você faria com mais de 50 milhões de reais?
dia 10 de janeiro o Jornal Nacional menciona, na manchete (aquele resumo das notícias de destaque do programa todo), que alguém em Goiânia está assistindo ao JN e rindo à toa: é o ganhador da Mega Sena. Os outros jornais anunciam que uma única pessoa levou o prêmio de 53 milhões de reais e já retirou o dinheiro do banco.
Não tenho acesso às notícias dos dias seguintes.
dia 15 de janeiro o Jornal Nacional tematiza as investigações do assassinato do ganhador da Mega Sena. Nenhum outro telejornal tocou no assunto.

Ser o único ganhador na loteria e receber um prêmio desse valor é insano. De repente o sujeito é milionário. De repente o camarada perde a sua identidade, suspende as suas atividades, sai de sua existência sofrida e veste a roupa de lantejoulas e brilhantes. De um dia pro outro a pessoa se sente obrigada a pensar em como gastar esse dinheiro, como economizar esse dinheiro, o que consumir, pra onde viajar, de quem fugir e se esconder. My precious....
Ter tanto dinheiro na mão num país como o Brasil, onde as diferenças sociais são gritantes, é imoral.
Não nos assusta que o goiano tenha pagado com a vida pela sorte de ser o único ganhador da Mega Sena.